Juliana Rizzieri – câncer de mama aos 39 anos

Juliana Rizzieri – câncer de mama aos 39 anos

15/10/2018

“Você está com câncer.”

Quem nunca teve arrepios ao imaginar ouvir essas palavras?

Eu ouvi.

Eu não acreditei.

Sabia que essa frase cairia na minha vida organizada e perfeita com o poder de destruição de um tsunami, e ela caiu assim mesmo. O que eu não sabia é que esse cataclisma resultaria em mais transformação do que destruição.

Afinal, somos quem queremos ser ou quem podemos ser? Tenho refletido muito sobre isso. Sobre quem eu cresci, quem me tornei com o passar dos anos e quem eu sou agora. Eu cresci uma criança alegre, criativa e curiosa. Em algum momento me tornei um adulto sarcástico, amargo e entediado. Como isso aconteceu? Onde eu me perdi de mim? Onde foi que eu deixei o riso fácil e a leveza?

Percebi que com o passar dos anos eu fui me colocando em caixas e, quanto mais a idade avançava, menor era a caixa onde eu estava. Uma espécie de produto seriado. Como aquelas formas de biscoito, que você estica a massa, a deixa grande e extensa e de repente a corta com um molde, fazendo o biscoito no formato de uma figura e deixando de lado toda aquela massa maravilhosa, sobrando…

Para pertencer a uma classe, um meio, um bando, eu me contentei em me colocar numa caixa e fiquei lá. Inerte. Entediada. Porque eu sou médica e médico tem que ser assim. Tem que agir assim. Tem que pensar assim. E quem não é assim, é esquisito.

O problema é que eu sempre fui esquisita! Eu sempre gostei de ser hippie. E de ser perua. E de ser culta. E de ser fútil. E de ser esportista. E de ser geek. E moderna. E retrô.

Escolhi ser o mais parecida possível com o meu microcosmos para não levantar suspeitas de que eu era uma fraude de mim mesma e guardei todas as outras (divertidas) versões no sótão.

Quando a onda do tsunami me pegou eu fui empurrada pro fundo. Quase me afoguei. E quando finalmente coloquei a cabeça pra fora da água eu estava livre. Eu era leve. Eu abandonei as caixas no fundo do mar e deixei o sol me esquentar. Eu tava rindo em vão de novo.

Se o câncer abriu minhas caixas, o Projeto Camaleão me deu a mão pra sair delas. Me mostra que eu posso ser o que eu quiser, quem eu quiser. Assiste minhas muitas versões e aplaude meu espetáculo quase esquizofrênico. Me incentiva a me divertir com o diferente, a encontrar beleza no estranhamento. Me ajuda a aceitar a transformação com calma e compaixão.

O Projeto Camaleão me devolveu pra mim.

Juliana Rizzieri, médica pediatra e fotógrafa, diagnosticada com câncer de mama em 2016, membro de nosso Conselho Médico.

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